Dra Ilza Maria Urbano Monteiro

Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção

 

Desde que os anticoncepcionais passaram a fazer parte da rotina da mulher moderna, a atenção se volta exclusivamente às mulheres, que recebem um turbilhão de informações sobre os métodos contraceptivos, suas vantagens e desvantagens. Apesar de ainda nos anos 60 os anticoncepcionais terem mudado a economia, a política e a cultura, os homens em geral acreditavam que cuidar da contracepção era assunto exclusivamente de mulheres, afinal, homem não engravida, né? Com o tempo eles percebiam que ter um filho trazia consequências às suas vidas também. Mas, afinal de contas: contracepção é coisa de homem?

 

Recentemente, parece que os homens decidiram participar da discussão sobre esses métodos e opinar sobre a escolha. Essa opinião tem peso grande, pois a aceitação do método por parte do parceiro está intimamente ligada à continuidade em seu uso.(¹’²) Quer dizer, quase todos os métodos anticoncepcionais modernos são utilizados por mulheres; a busca pelos métodos é frequentemente feminina; elas que fazem exames preventivos; na adolescência, elas iniciam uma interação com seu corpo, principalmente útero, ovários, vagina e mamas que vai acompanhá-las durante toda a vida; definitivamente é o corpo feminino que se adapta, aí os homens querem opinar? Sim! Eles, que haviam ficado à margem das decisões sobre anticoncepção durante muito tempo, passaram a ser protagonistas de um movimento de conscientização que tem grande importância na saúde reprodutiva do casal.

 

Idealmente a escolha do método contraceptivo deveria ser feita pelo casal. Ao conhecer melhor sobre como atuam, quais as alterações possíveis e prováveis que podem provocar no corpo feminino, o homem pode aumentar a adesão ao método escolhido. Para participar dessa decisão, é importante que ele saiba algumas informações sobre esses métodos.

 

 

As jovens adolescentes, ao apresentarem sua primeira menstruação, passam a conversar entre si sobre sintomas menstruais como dores, cólicas, corrimento vaginal e, com isso, trocam informações sobre métodos contraceptivos. Importante estudo com 207 líderes de Planejamento Familiar em jovens, sobre desafios e conhecimento na escolha e uso de contraceptivos, observou que mais de 80% das adolescentes escolheram método por causa de uma amiga ou do grupo.(³) Ou seja, algumas adolescentes são formadoras de opinião do grupo, devido a uma característica dessa fase de agrupar-se, buscar apoio e conhecimento em outras colegas do grupo.

 

Diferente das adolescentes, o jovem adolescente, no entanto, sente as grandes mudanças em sua genitália, no aumento de pelos como surgimento de barba, bigode, engrossamento da voz, mas raramente discute com os amigos sobre essas transformações corporais. Como característica da sociedade ocidental, falar sobre a sexualidade entre os homens envolve principalmente conquistas e performance sexual, seguindo padrões estereotipados de comportamento. Frequentemente encontram pouco espaço para discutir sobre dúvidas individuais, notadamente se esta puder abalar de alguma forma sua masculinidade. Ao contrário das adolescentes, os homens raramente vão apresentar sintomas desconfortáveis como dor e, por essa razão, muito raramente procuram por um profissional de saúde. Até mesmo quando precisam de auxílio médico, o foco da consulta é a resolução de alguma queixa clínica e quase nunca conversam sobre sua sexualidade. É possível que embora não pareça um tabu como ocorre com as mulheres, discussões sobre sexualidade não parecem tão profundas, nem estabelecem um canal aberto com o médico. 

 

Com o início da vida sexual, os adolescentes começam a se preocupar com o risco de gravidez. Infelizmente, ainda é comum que essa preocupação aconteça após a primeira relação, o que leva a um número significativo de gravidezes não planejadas já nesse período. Atualmente, o acesso às informações sobre os métodos contraceptivos pode ser mais fácil e a mídia trouxe muitas informações que antes estavam restritas às consultas médicas. Se por um lado essa facilidade é muito positiva, por outro há uma grande preocupação quanto à qualidade das informações, pois as mais acessíveis e atraentes costumam trazer conteúdo superficial, com inverdades ou que perpetuam mitos.

 

Tipo de método anticoncepcional e como atua

Anticoncepcional hormonal combinado oral (AHCO): é o mais escolhido no Brasil e conhecido como pílula anticoncepcional. E como ela age? A principal forma de agir é impedindo a ovulação. Isso é possível porque o uso diário do comprimido impede o óvulo de se desenvolver. Com isso, não ocorre a fertilização, que é o encontro do espermatozoide com o óvulo. Quando usadas perfeitamente, as pílulas modernas são muito eficazes em impedir a ovulação e a gravidez, com uma taxa de falha de 0,3 em cada 100 mulheres, durante um ano. Mas o esquecimento de qualquer uma delas pode diminuir sua eficácia e os estudos mostram que, na prática, a pílula falha em 8 a cada 100 mulheres durante um ano de uso. A participação masculina na lembrança diária do uso da pílula, além de mostrar comprometimento do parceiro com a contracepção, pode aumentar sua eficácia na prática.

 

A participação do parceiro pode ajudar a melhorar a eficácia real da pílula ao acolher sua parceira quando enfrenta outros efeitos adversos. Como exemplo, pode-se citar as mudanças na menstruação que ocorrem no início do uso dos métodos hormonais. Muitas vezes as adolescentes começam a usar pílulas sem orientações e compram o mesmo tipo que suas amigas estão tomando. Cada organismo reage de forma própria e sintomas podem aparecer em algumas e não em outras. Uma das principais alterações é sangramento vaginal durante o uso das pílulas e fora do período menstrual. Esse sintoma pode assustar a adolescente e, por acreditar que algo está errado com seu corpo, é possível que interrompa precipitadamente o uso da pílula. Esse mesmo sangramento vaginal pode aparecer durante uma relação sexual e ser motivo de transtorno para o casal. Se o parceiro souber que isso pode acontecer no início do uso do método, ele pode se tranquilizar e passar essa confiança à sua parceira, evitando a interrupção do método. 

 

O mesmo pode acontecer com a injeção mensal, o anel vaginal e o adesivo. O que muda é a frequência do uso, que é mensal para a injeção combinada, semanal para o adesivo e o anel vaginal, que deve ser trocado a cada três semanas de uso seguido de 7 dias sem o anel. 

 

Métodos de longa duração

Como o esquecimento é um dos principais motivos de falha dos métodos contraceptivos, muitas mulheres se beneficiam do uso de um método que não dependa da lembrança. Atualmente, esses métodos são chamados de longa duração e nesse grupo encontram-se o implante e os dispositivos intrauterinos (DIUs). Os DIUs podem conter hormônios ou não. As menstruações são frequentemente modificadas em mulheres que usam os implantes e o DIU hormonal. Durante os três primeiros meses de uso é comum que elas apresentem escapes menstruais. Esse período exige da mulher determinação e paciência, além do uso de absorventes ou coletores menstruais quase que diariamente. É possível ter relações sexuais nesse período, visto que o sangramento é escasso, e ao saber desse efeito temporário na imensa maioria das mulheres, o transtorno diminui, assim como a ansiedade feminina. 

 

Há vários mitos com relação aos DIUs, mas, no que se refere aos homens, alguns deles têm receio de que o DIU possa machucá-lo durante uma relação sexual. É muito provável que o desconhecimento, de que o DIU se localiza dentro do útero e não na vagina, seja uma das principais razões para esse receio. Outro motivo, é pelo fato de nunca ter visto o próprio DIU, sem saber sobre seu tamanho, forma ou material de que é feito. O medo, e até mesmo algumas queixas, vêm do desconhecido. Durante a consulta, o médico pode mostrar o DIU e explicar exatamente como age e onde vai ficar localizado.

 

Outro método de longa duração é o implante subdérmico, que ficou popularmente conhecido como “chip”. Embora diferente da tradução correta, no Brasil ter um “chip” pode significar que é possível ser rastreado e controlado. Embora seja um mito, essas afirmações repetem-se às vezes em consultas médicas. É importante então, mostrar o implante ao casal, que vai conhecer seu tamanho, de que é feito e onde se localiza, tranquilizando-os quanto à segurança do uso e desfazendo conceitos errôneos sobre ele.

 

Métodos de Barreira

O preservativo feminino e masculino pode evitar filhos e prevenir doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). O preservativo masculino ou camisinha é o mais utilizado, por ser mais conhecido, simples de usar e de baixo custo, sendo distribuído pelo Sistema Único de Saúde (SUS) gratuitamente. Apesar da facilidade em se adquirir, o uso do preservativo, para prevenção de DSTs ainda é pequeno em face ao que poderia e deveria ser. Estudo brasileiro com 37.282 jovens entre 17 e 22 anos mostrou que, embora o uso irregular de camisinha masculina seja maior que 60%, o uso em todas as relações foi pouco maior que 30% deles.(4) Embora a taxa de sucesso como contraceptivo não seja tão alta, usar o preservativo é a forma mais eficiente para prevenir DSTs. Com raras exceções, os homens são portadores sadios, ou seja, não apresentam qualquer sintoma, quando se contaminam com alguns patógenos, como por exemplo HPV (Papilloma Virus Humano) ou mesmo Clamidia sp, uma das principais causadoras da doença inflamatória pélvica e infertilidade na mulher. Outras doenças, entretanto, causam dano e sintomas também nos homens e são transmitidas sexualmente. A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA), popularmente conhecida pela sigla em inglês, AIDS, entretanto, atinge tanto homens como mulheres e a transmissão sexual é uma das mais comuns formas de contágio. O uso da camisinha é o mais efetivo método para evitar sua própria contaminação. A Vasectomia, método que leva à esterilização, deve ser considerado como um método irreversível, pois os resultados não são garantidos.

 

O canal de comunicação com o médico ou profissional de saúde é muito importante para dirimir dúvidas, derrubar mitos e questionar algumas práticas que já se mostram ineficientes. As consultas onde o casal apresenta suas dúvidas e as discute com o médico que os atende são muito mais eficientes, levando a uma escolha mais adequada e de maior satisfação. A satisfação no uso dos métodos contraceptivos está diretamente associada ao seu uso correto e eficiente. Nunca a frase “Pergunte para o seu médico” foi tão verdadeira. Conhecer melhor o corpo de sua parceira e o seu próprio, discutir suas dúvidas com um profissional aberto e competente, são o caminho para uma melhor saúde reprodutiva. 

 


Referências

  1. Zhu JL, Zhang WH, Cheng Y, Xu J, Xu X, Gibson D, et al. Impact of post-abortion family planning services on contraceptive use and abortion rate among young women in China: a cluster randomised trial. Eur J Contracept Reprod Health Care. 2009;14(1):46-54. doi: 10.1080/13625180802512994
  2. Lemani C, Tang JH, Kopp D, Phiri B, Kumvula C, Chikosi L, et al. Contraceptive uptake after training community health workers in couples counseling: a cluster randomized trial. PLoS One. 2017;12(4):e0175879. doi: 10.1371/journal.pone.0175879
  3. Cartwright AF, Otai J, Maytan-Joneydi A, McGuire C, Sullivan E, Olumide A, et al. Access to family planning for youth: perspectives of young family planning leaders from 40 countries. Gates Open Res. 2019;3:1513. doi: 10.12688/gatesopenres.13045.2
  4. Damacena GN, Szwarcwald CL, Motta LRD, Kato SK, Adami AG, Paganella MP, et al. A  portrait of risk behavior towards HIV infection among Brazilian Army conscripts by geographic regions, 2016. Rev Bras Epidemiol. 2019;22 Suppl 1:e190009. doi: 10.1590/1980-549720190009.supl.1